Entre safras e histórias, uma imersão nos vinhos da Villaggio Bassetti
Participei ontem de uma degustação vertical que, sinceramente, me marcou mais do que eu esperava. Não só pela qualidade dos vinhos, mas pela experiência completa de entender como o tempo, o clima e as escolhas na vinificação impactam diretamente o que chega à taça.
O encontro apresentou rótulos da Vinícola Villaggio Bassetti, de São Joaquim, na Serra Catarinense, uma região que vem se consolidando como uma das mais interessantes do Brasil quando o assunto é vinho de altitude. Ali, a cerca de 1.300 metros acima do nível do mar, com dias quentes e noites frias, as uvas conseguem maturar plenamente mantendo uma acidez elevada, algo fundamental para a elegância e longevidade dos vinhos .
A degustação foi conduzida pelo próprio proprietário da vinícola, José Eduardo Pioli Bassetti, o que fez toda a diferença. Ouvir de quem está à frente do processo cada detalhe, cada decisão e cada safra trouxe uma camada extra de entendimento e valorização dos vinhos.
Um ponto que me chamou muita atenção foi a filosofia de mínima intervenção. Os vinhos são elaborados sem adição de leveduras ou açúcar, o que permite que cada safra expresse com fidelidade as condições do ano. Mais chuva, mais seca, geadas, tudo isso aparece no vinho. É quase como provar o clima em forma líquida.
Dentro da degustação, um dos grandes momentos para mim foi o Donna Enny Sauvignon Blanc 2016. Um vinho que já não está mais disponível no mercado e que me surpreendeu muito. Evoluído na medida certa, com complexidade, notas que passam por cítrico, fruta madura, toques minerais e uma madeira extremamente bem integrada. Um vinho elegante, profundo e marcante .
Na comparação direta, o Donna Enny 2025 também impressiona. Mais jovem, mais vibrante, com frescor evidente, mas já mostrando equilíbrio e potencial. É interessante perceber como o mesmo rótulo se transforma de acordo com a safra, reforçando o conceito da degustação vertical.
Outro aspecto relevante é a escala de produção. A vinícola elabora cerca de 25 mil garrafas por ano, com aproximadamente 15 rótulos distintos, o que reforça o caráter praticamente artesanal e o cuidado em cada etapa do processo . A produção atende tanto restaurantes e wine shops quanto consumidores finais.
Vale destacar também a diversidade de uvas trabalhadas pela vinícola, com variedades adaptadas ao terroir de altitude, o que amplia o portfólio e as possibilidades de expressão dos vinhos.
Tudo isso foi ainda melhor acompanhado de um clássico, o strogonoff de carne do restaurante Ile de France. Um prato tradicional, muito bem executado, que harmonizou perfeitamente com os vinhos e completou a experiência.
Saí de lá com uma certeza. O vinho brasileiro, quando bem feito, pode sim se comparar a bons rótulos europeus. E experiências como essa deixam isso muito claro, na prática, taça a taça.
Adriano Rattmann


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