Igor transforma ingredientes locais em um menu criativo, técnico e cheio de referências

Restaurante comandado pelo chef Igor Marquesini aposta em produtos frescos, cozinha aberta e uma sequência de 13 etapas acompanhada por uma harmonização que vai do espumante ao vinho de sobremesa

Por Adriano Rattmann


A quantidade de prêmios expostos nas paredes do Restaurante Igor impressiona. São tantos que, em breve, talvez seja necessário encontrar um novo espaço para acomodá-los. O restaurante e o chef Igor Marquesini acumulam reconhecimentos do Prêmio Bom Gourmet. Em 2026, a casa voltou a figurar entre os 30 Melhores Restaurantes do Paraná, na quinta colocação, enquanto Marquesini foi novamente escolhido como Chef 5 Estrelas. O Igor também conquistou a 28ª posição na lista dos 100 melhores restaurantes do Brasil elaborada pela revista Exame. Premiações que ajudam a aumentar a expectativa de quem chega para jantar.



E essa expectativa começa a ser construída antes mesmo de entrar. A fachada é marcada por uma arte do curitibano Jorge Torres Galvão, artista ligado às artes gráficas e à cultura urbana. É uma entrada muito convidativa e que já antecipa a proposta autoral encontrada dentro do restaurante.


No salão, um dos diferenciais é a cozinha aberta. É possível acompanhar a movimentação da equipe, observar a montagem dos pratos e perceber a precisão necessária para que cada etapa chegue à mesa no momento certo. Em vez de quebrar o clima intimista do ambiente, a cozinha à vista aproxima o cliente do trabalho realizado nos bastidores.

À frente da casa está Igor Marquesini, chef que construiu parte de sua trajetória fora do Brasil e morou na Austrália, nos Estados Unidos e na Itália. Trabalhou em restaurantes como o Piccolo Lago, na região italiana do Piemonte, e o Annisa, em Nova York, além do Manu, em Curitiba. Ao abrir o restaurante que leva seu nome, reuniu referências internacionais, técnica e uma relação muito próxima com os ingredientes produzidos no Paraná.


Essa valorização do produto fresco ajuda a explicar por que o menu está sempre sujeito a surpresas. A Chácara Maria Emília, produtora de vegetais orgânicos, é uma das principais fornecedoras da casa. O cardápio acompanha a disponibilidade e a sazonalidade da produção. Igor trabalha com aquilo que encontra de melhor a cada período, o que permite incorporar constantemente novos ingredientes e preparos ao menu. É uma cozinha em movimento, que não se prende a uma fórmula definitiva.

Na noite em que estive no restaurante, escolhi o Menu Longo, formado por 13 etapas, com harmonização de sete taças. A proposta é conduzir o cliente por uma sequência com snacks, pães, três preparos principais, duas sobremesas e os bombons que já se tornaram uma das marcas de Igor.



Para quem deseja conhecer o trabalho do chef por um valor mais acessível, há também o Menu Curto. A sequência começa diretamente pelos pães, sem os snacks, e continua com os três pratos principais, duas sobremesas e bombons. Tanto o Menu Longo quanto o Curto podem ser pedidos sem harmonização, o que também reduz o valor do jantar.

O percurso começou com três snacks, pequenas entradas pensadas para serem comidas com as mãos. O primeiro reuniu ostra e sorvete de limão rosa, uma combinação fresca e de acidez muito agradável. Depois veio um preparo de pinhão em diferentes texturas: purê, picles e missô de pinhão sobre uma base crocante de linhaça. Uma demonstração interessante de como um ingrediente profundamente ligado ao Paraná pode ganhar novas formas e sabores.



O terceiro snack combinou camarão, abóbora e leite de coco. O preparo trouxe uma base cremosa de arroz com água de coco e um crudo de camarão, numa composição delicada que remetia ao bobó, mas sem tentar reproduzir o prato tradicional. Os três foram acompanhados pelo espumante Berkano Extra Brut, produzido na Serra Gaúcha, que cumpriu bem a função de abrir o jantar e acompanhar a diversidade de sabores.

Na sequência, o menu propôs uma viagem por releituras de pratos clássicos encontrados em Curitiba. O conhecido rollmops apareceu reinterpretado em uma combinação de peixe, batata e ervilha. Depois vieram a gema de ovo com melado e centeio e uma versão da carne de onça acompanhada por castanha do Pará. São referências reconhecíveis, mas apresentadas com técnicas, texturas e combinações que as afastam do lugar comum.

Essa etapa foi harmonizada com saquê, uma escolha pouco óbvia e muito bem integrada à sequência. Mais do que acompanhar individualmente cada preparo, a bebida estabeleceu uma ligação entre pratos com identidades bastante diferentes.



Em seguida chegaram os pães de fermentação natural, acompanhados por uma cerveja sour da Bastards Brewery. A acidez e a fermentação da cerveja dialogaram muito bem com os sabores e a textura dos pães. Foi uma das harmonizações mais interessantes da noite justamente por fugir da combinação tradicional com vinho.

Antes dos pratos principais, foi servido um Riesling alemão, utilizado como uma espécie de transição e limpeza do paladar. Vinificado em concreto, o vinho apresentou acidez mais elevada e notas que lembravam maracujá e pêssego verde, preparando o caminho para a sequência mais substanciosa do menu.

O primeiro prato reuniu sorpresine, cogumelos e nirá. Depois veio a pescada amarela com marisco e cebola. O peixe, executado com precisão, mostrou novamente a importância dada aos ingredientes e aos molhos que complementam, mas não escondem o produto principal. Os dois preparos foram acompanhados por um Chardonnay francês.

Na terceira etapa, o pato foi apresentado em cortes muito finos, ao lado de mandioca e especiarias. O prato foi harmonizado com um Pinot Noir chileno Cata, escolha especialmente apropriada para uma noite que coincidia com o Dia Internacional da Pinot Noir, comemorado em 18 de agosto. A delicadeza do vinho acompanhou bem a carne, sem se sobrepor às especiarias.

Todos os pratos chegaram com ótima apresentação e sabores muito bem construídos. É difícil apontar um único favorito. O mérito do menu está justamente na regularidade: não há uma etapa isolada carregando toda a sequência. Há criatividade, técnica e coerência do começo ao fim, mesmo quando o percurso transita por ingredientes, referências e bebidas bastante diferentes.

A primeira sobremesa trouxe caqui em creme e também em pequenos pedaços, alguns com textura e sabor concentrados que lembravam uvas passas, acompanhado por iogurte e coalhada. A acidez dos lácteos evitou que o conjunto ficasse excessivamente doce. A segunda reuniu castanha, banana e passas, novamente explorando diferentes texturas.

As sobremesas foram harmonizadas com o Floralis Moscatel Oro, vinho espanhol da Família Torres. Aromático e com doçura equilibrada, o Moscatel acompanhou os preparos sem se sobrepor aos sabores das frutas, da castanha e dos componentes mais ácidos.

O encerramento veio com os bombons, uma especialidade de Igor. Entre eles, chamou atenção o Romeu e Julieta, uma interpretação diferente e muito saborosa da combinação de queijo com goiabada. É um final pequeno no tamanho, mas preciso na intenção: recuperar um sabor conhecido e apresentá-lo sob outra perspectiva.

O Restaurante Igor não busca apenas servir uma sucessão de pratos bonitos. Existe um fio condutor baseado na criatividade, na técnica, na sazonalidade e no aproveitamento do que os fornecedores locais entregam de melhor. A harmonização também participa efetivamente dessa narrativa. Espumante, saquê, cerveja, Riesling, Chardonnay, Pinot Noir e Moscatel não aparecem como simples acompanhamentos, mas como partes importantes do percurso.



Os muitos prêmios na parede criam uma grande expectativa. Depois de percorrer as 13 etapas do Menu Longo, fica fácil entender por que está começando a faltar espaço para tantos troféus.

Serviço

Restaurante Igor
Rua Gutemberg, 151, Batel, Curitiba
Terça-feira a sábado, a partir das 19h30
Menu Curto: R$ 350
Menu Curto harmonizado: R$ 640
Menu Longo: R$ 440
Menu Longo harmonizado: R$ 790
Reservas antecipadas: (41) 3014-0906

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