Ventisquero surpreende em jantar harmonizado no K.SA

Por: Adriano Rattmann

Edição especial do Abrindo a K.sa reuniu a cozinha autoral de Claudia Krauspenhar e seis grandes vinhos apresentados pelo enólogo chileno Alejandro Galaz

A Ventisquero é conhecida por muitos consumidores brasileiros principalmente por seus vinhos de entrada, encontrados com relativa facilidade no mercado. Mas a edição especial do Abrindo a K.sa, realizada na noite de quarta feira (19), mostrou uma face bem mais ousada e sofisticada da vinícola chilena.

Com a participação de Alejandro Galaz, enólogo da Ventisquero e eleito o Melhor Enólogo do Chile em 2025, o jantar harmonizado foi marcado por boas surpresas, tanto nas taças quanto nos pratos preparados pela chef e anfitriã Claudia Krauspenhar.


A sequência começou com três vinhos da linha Tara, produzidos no Deserto do Atacama. As características extremas da região, com solos calcários formados pela presença de fósseis marinhos, conferem aos rótulos uma mineralidade bastante acentuada.

O Tara Sauvignon Blanc abriu a noite revelando justamente essa personalidade. Fresco, mineral e com uma salinidade muito nítida no final, encontrou uma ótima combinação nas ostras servidas com vinagrete. Foi uma harmonização precisa, na qual a acidez e o caráter salino do vinho acompanharam perfeitamente o frescor do prato.

Na sequência, o Tara Chardonnay foi servido com vieiras grelhadas, molho de missô e leite de coco, maçã verde e crocante de algas. Como as vieiras estão entre meus pratos prediletos, naturalmente havia uma expectativa especial. E ela foi plenamente correspondida. O cozimento estava correto, preservando a delicadeza e a textura do ingrediente, enquanto o molho acrescentou cremosidade e umami. A maçã trouxe acidez e o crocante de algas reforçou a ligação com a mineralidade do vinho.


O terceiro rótulo do Atacama foi o Tara Pinot Noir, um vinho mais encorpado do que normalmente se espera dessa uva. Foi uma grata surpresa, especialmente ao lado do magret de canard, acompanhado por um surpreendente purê de couve flor. A intensidade do vinho sustentou bem o sabor do pato, enquanto o purê, delicado e muito bem executado, ajudou a equilibrar o conjunto.

A partir daí, o jantar avançou para os vinhos tintos mais intensos e para os pratos de carne. Com a costela, tivemos a oportunidade de provar simultaneamente dois rótulos, uma escolha interessante porque permitiu perceber como diferentes composições podem mudar completamente a relação entre vinho e comida.


O primeiro foi o Oblíqua, um Carménère bastante representativo do Chile, intenso e equilibrado, elaborado com pequenas parcelas de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, 5% de cada variedade. É um vinho que preserva a identidade do Carménère, mas ganha estrutura e complexidade com a presença das duas uvas complementares.

Ao lado dele veio o Vértice, corte de Syrah e Carménère que acabou sendo o preferido de boa parte dos convidados. Mais expansivo e envolvente, mostrou potência sem perder o equilíbrio e acompanhou muito bem a suculência e a intensidade da costela.

Para finalizar a parte salgada, chegou à mesa o Pangea, um Syrah intenso, complexo e persistente. Foi o meu vinho preferido da noite. A combinação com o entrecot funcionou muito bem, com a estrutura do rótulo acompanhando a gordura e o sabor pronunciado da carne sem se sobrepor ao prato.

A sobremesa foi uma torta basca com gorgonzola e calda de goiabada. A presença do queijo azul deu personalidade a uma combinação que poderia seguir apenas pelo caminho do doce, enquanto a goiabada trouxe uma referência brasileira e afetiva. Um encerramento criativo para um menu que soube apresentar contrastes sem recorrer a excessos.

Além da qualidade dos vinhos, a presença de Alejandro Galaz fez diferença. Mais do que simplesmente anunciar cada rótulo, o enólogo apresentou regiões, solos, variedades e decisões de produção, ajudando os convidados a compreender o que havia dentro de cada taça.

Claudia Krauspenhar, por sua vez, mostrou novamente sua capacidade de construir pratos autorais, elegantes e, acima de tudo, saborosos. Houve técnica, mas ela esteve sempre a serviço do ingrediente e da harmonização.

O Abrindo a K.sa cumpriu muito bem sua proposta: aproximou cozinha, vinho e informação em uma noite descontraída e repleta de descobertas. Para quem ainda relacionava a Ventisquero apenas aos rótulos mais acessíveis da vinícola, o jantar deixou uma certeza: há muito mais para conhecer.

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